Por que repetimos padrões sem perceber?

A pergunta raramente aparece à toa.

O copo de cerveja estava no meio da mesa quando o amigo parou a conversa.

Ele tinha ouvido tudo: o término, o jeito que os últimos meses tinham pesado, a sensação de ter dado mais do que recebeu. Era a quarta vez que os dois se encontravam naquele bar desde que as coisas tinham começado a piorar. A cada vez, a história ficava um pouco mais longa.

“Você sabe que isso é igual ao que aconteceu com a Fernanda, né?”

Ele ficou quieto. A Fernanda era de três anos atrás. Nome diferente, tempo diferente, bairro diferente. Mas o amigo estava certo: o enredo era o mesmo. Alguém que desaparecia quando a coisa ficava séria, mensagens que demoravam, a sensação de estar sempre esperando por algo que não chegava. E, no fim, a conclusão de que o problema tinha sido o outro.

“É diferente”, ele disse. Mas enquanto dizia, não acreditava.

Quando chegou em casa mais tarde, ficou algum tempo sentado sem acender a luz. A pergunta tinha ficado no ar, e ele não conseguia mais não ouvi-la.

Por que de novo?

Não era a primeira vez que percebia uma semelhança entre duas histórias. Mas era a primeira vez que a semelhança tinha um peso de padrão, não de coincidência.

A diferença entre os dois é pequena e muda tudo.

Coincidência é aquilo que poderia ter sido diferente se um detalhe tivesse mudado. Padrão é aquilo que provavelmente teria acontecido de qualquer forma, porque quem o produz não está vendo que o produz.

Há pessoas que saem de um relacionamento onde o parceiro era distante e entram em outro onde o parceiro é presente, mas com o tempo percebem que criaram uma distância por conta própria. O distante era o outro antes. Agora é ele. O padrão estava na posição que o parceiro ocupava na relação. O parceiro em si era quase um detalhe.

Há pessoas que dizem que atraem pessoas problemáticas. Quando se olha mais de perto, o que se vê é uma familiaridade com o tipo de tensão que essas relações produzem, mais do que azar de escolha. O familiar é mais previsível do que o desconhecido, mesmo quando machuca. O desconhecido é, por definição, sem garantias.

Isso não tem nada de fraqueza. É só como funciona quando algo ainda não foi visto.

O que se repete tem uma história antes da repetição. E essa história não está nos detalhes que mudam de uma vez para outra, mas no que permanece constante sem que a pessoa perceba.

Na análise, esse movimento aparece de formas diferentes. Há quem perceba no meio de uma fala, como aconteceu com o amigo do bar, que a história que está contando é parecida com outra que já contou. Há quem veja na relação com o analista o mesmo padrão que reconhece em outras relações: espera que o outro decida, espera que o outro discorde, espera que o silêncio seja julgamento.

Um homem falava, durante meses, sobre o chefe que o preterira numa promoção. Chegava na sessão com os detalhes precisos, a sequência de eventos, os colegas que tinham sido favorecidos por razões que não faziam sentido. O analista escutava. Até que num dia, depois de um silêncio um pouco mais longo que o habitual, ele disse: “Você também acha que eu exagero, né?”

O analista não achava nada. Mas aquele silêncio tinha se tornado julgamento. E o padrão estava ali: ele transformava a indiferença dos outros em rejeição, e respondia à rejeição imaginada de um jeito que acabava provocando a indiferença real. O chefe era apenas o lugar onde o problema reaparecia, não a origem dele.

Ver isso não resolveu nada imediatamente. Nos meses seguintes, ele continuou chegando na sessão irritado com o chefe, com outros colegas, com situações em que sentia que não era levado a sério. Mas havia uma diferença: às vezes, no meio da fala, ele parava. “Espera. Acho que estou fazendo aquilo de novo.”

Não sempre, e não de forma limpa. Havia sessões em que o padrão se repetia inteiro antes de ser notado, e só na saída ele percebia o que tinha acontecido. Mas com uma frequência que antes não existia.

Reconhecer um padrão é uma coisa. Deixar de repeti-lo é outra bem diferente, e essa é a parte que a maioria das pessoas não espera. Alguém que entende por que escolhe parceiros que somem continua, por algum tempo, escolhendo parceiros que somem. Quem entende por que converte silêncio em rejeição ainda vai convertê-lo. O entendimento não cancela o movimento. Mas muda alguma coisa no meio dele.

O que muda é que a repetição deixa de ser totalmente cega. Ela passa a ter um instante, às vezes brevíssimo, em que a pessoa percebe o que está fazendo enquanto faz. Esse instante não garante nada. Mas é diferente de não tê-lo.

Ele voltou ao bar algumas semanas depois. O amigo estava lá, o copo no meio da mesa, a mesma conversa de sempre. Em algum momento da noite, ele se ouviu contando uma história sobre o trabalho, um colega que tinha sumido sem dar satisfação, a sensação de estar sempre esperando por algo que não chegava. Parou no meio da frase.

O amigo não disse nada. Só esperou.

Ele ficou quieto por um instante. Não porque tivesse a resposta. Porque reconheceu o cheiro da história antes de ela terminar, como quem entra num cômodo e sabe, antes de acender a luz, que já esteve ali.

Entender de onde vem é diferente de fazer passar.

Se você quer entender o que está por trás do que sente, podemos conversar.

Você reconhece o cheiro da história antes de ela terminar.