Por que tenho dificuldade em dizer não?
O não não é só uma palavra. É o limite entre o que você é e o que aprendeu a ser.
Mais uma tarde que não lhe pertence. O telefone toca, é um colega de trabalho pedindo ajuda com algo que ele mesmo poderia resolver, e a resposta sai antes de qualquer deliberação: “claro, sem problemas”, enquanto por dentro o peso de mais uma tarefa vai se acumulando. Mais tarde, em casa, a filha adolescente pede um favor que implica rearrumar toda a noite, e de novo: “tudo bem, pode deixar”. Quando finalmente dá para sentar, já são quase onze horas, e há um nó no estômago, uma irritação difusa, uma sensação de que o dia passou inteiro sem que houvesse um único momento que fosse só seu. Dias depois, um amigo, desavisado, comenta que essa é uma pessoa muito generosa. Sorriso, agradecimento, e a pergunta guardada para si mesma: por que eu não consigo dizer não?
A dificuldade em dizer não carrega algo bem mais revelador do que um defeito de caráter ou uma falha a corrigir: fala menos sobre o que você diz e mais sobre o que você aprendeu a não dizer sobre si mesmo. Porque o não não é apenas uma palavra. É o limite que você impõe entre o que você quer e o que o outro deseja, entre o tempo que você tem e o tempo que os outros tomam, entre o que você é e o que você aprendeu a ser para ser aceito.
Dizer não envolve um risco que muitas vezes não é nomeado: o risco de desagradar, de decepcionar, de ser visto como egoísta, de perder o amor ou a aprovação de quem está do outro lado. Para muita gente, o não é vivido como uma ameaça à própria sobrevivência emocional. Crescemos aprendendo que a bondade é recompensada e que a generosidade é um valor, e isso não é errado em si. O que é problemático é quando o preço dessa generosidade é o apagamento de si mesmo, quando o sim para os outros se torna, pouco a pouco, um não silencioso para a própria vida.
Por trás da incapacidade de recusar, muitas vezes, há uma história que foi escrita antes mesmo de você ter voz para contar a sua. Talvez você tenha aprendido cedo que amar era fazer o que o outro queria, que a sua função era agradar, que as suas necessidades vinham sempre depois das necessidades dos outros, e que discordar era uma forma de desamor. Talvez você tenha crescido num ambiente onde o não era recebido com indiferença, com raiva, com silêncio punitivo, e aprendeu que a única forma segura de estar no mundo era ocupar o menor espaço possível, se fazer necessário para não ser abandonado. A dificuldade em dizer não é, no fundo, uma forma de proteção contra uma ferida que ainda não cicatrizou, uma ferida que diz, baixinho, que o seu valor depende do que você pode dar ao outro.
O que torna essa dinâmica ainda mais difícil de ver é que ela se alimenta de si mesma. Quanto mais você diz sim para o que não quer, mais o outro espera que você continue dizendo sim, e mais difícil fica romper com o padrão. Cada nova concessão aumenta o custo de dizer não, o medo da reação que viria se você finalmente recusasse. E assim o ciclo se perpetua: você acumula pequenas dores cotidianas, ressentimentos que não são expressos, cansaço que não tem nome, e a pergunta “por que eu faço isso?” continua sem resposta, porque a resposta exige encarar algo que você passa muito tempo evitando.
Há uma ideia importante aqui: os sintomas que mais nos afligem são também, muitas vezes, os que nos protegem de algo que ainda não foi nomeado. Essa dificuldade em dizer não é também uma forma de manter uma certa imagem de si, uma imagem que talvez seja a única que você aprendeu a ocupar com segurança. Dizer não implicaria reescrever o que você acredita ser, e isso assusta, porque nenhum de nós sabe muito bem quem é sem os papéis que aprendeu a desempenhar. O problema é que, com o tempo, esses papéis grudam no corpo, e você já não distingue mais onde termina o papel e onde começa a sua própria pele. Há pessoas que só percebem isso quando alguém de fora nomeia o padrão e a primeira reação é de estranheza, uma espécie de surpresa diante de algo que estava ali o tempo todo sem nunca ter sido visto assim.
Quando alguém começa a olhar para isso, algo pode mudar. Não de uma vez, não de forma visível. A análise não entrega uma técnica para falar não, um roteiro ensaiado, um passo a passo; não é disso que ela se ocupa. O que acontece é mais lento: há quem comece a sentir onde está o próprio limite antes mesmo de abrir a boca. O nó no estômago que sempre estava lá começa a ter outro peso, não de sinal ignorado, mas de informação. Há pessoas que descrevem esse momento como perceber que já sabiam, só não tinham parado para escutar.
O telefone toca de novo. O colega, o mesmo pedido de sempre. O nó aparece antes da resposta, como sempre apareceu. A diferença é que desta vez a pessoa o nota um segundo antes de abrir a boca. O que ela faz com esse segundo, só ela vai saber. Mas o segundo existe, e antes não existia.