Quando a ansiedade parece não ter motivo

O corpo faz o trabalho que a cabeça ainda não conseguiu fazer.

O coração acelerou antes de ele perceber por quê. Estava sentado com um livro aberto no colo, quinze para as seis, a mesma página há dez minutos, nada urgente, ninguém esperando. As mãos começaram a suar. Alguma coisa subiu pelo peito e apertou a garganta, e ele teve vontade de levantar e sair andando, sem destino, só pra não ficar ali sentado com aquilo. Mas ficou. Olhou em volta, o ar-condicionado com o zumbido de sempre, o sol da tarde na janela, a sala exatamente como estava, e não encontrou nada que explicasse o que o corpo estava fazendo.

Não é a primeira vez que essa sensação aparece e atrapalha. Semana passada foi numa segunda de manhã, escovando os dentes, sem nenhum pensamento especial passando pela cabeça. Mês passado foi no meio de um jantar tranquilo, com gente que ele gosta de ver, rindo de alguma piada qualquer, quando o aperto chegou do nada e ele teve que sair pra respirar no corredor. Não tem hora do dia, não tem lugar, não tem nada que avise antes.

Tenta os motivos de sempre: café, noite mal dormida, alguma coisa que comeu no almoço. No fundo sabe que não é nada disso, porque essa sensação já visitou ele assim, do nada, dirigindo, no banho, na fila do mercado pagando uma compra qualquer, sem aviso nenhum.

Antes de virar pergunta pra mente, esse aperto também merece ser olhado pelo corpo. Vale fazer exame, vale check-up, vale descartar o que for da ordem do físico. Só que mesmo quando o exame vem limpo, mesmo quando o corpo está bem por fora, o aperto continua voltando. É aí que a pergunta muda de lugar.

Existe uma expectativa comum de que ansiedade precisa ter uma causa rastreável, como um problema no trabalho, uma briga, uma conta atrasada. Funciona quando há uma reunião difícil marcada, quando há uma conversa que ele sabe que vai doer. Aí reconhece a fonte, nomeia o medo, e o corpo segue o roteiro esperado. Resolve a causa, resolve o sintoma. O problema é quando a ansiedade aparece bem no meio de um dia tranquilo, sem inimigo nenhum pra apontar. Sobra só ele e uma sensação que não bate com nada do que está acontecendo ao redor, e por cima ainda vem a culpa de sentir algo que, pelas contas, ele não deveria estar sentindo.

Por trás dessa culpa mora uma ideia ainda mais antiga, a de que ele deveria ter controle sobre o que sente, que se o dia está calmo por fora, por dentro também deveria estar. Respira fundo, levanta, dá uma volta pela sala, bebe um gole da água que está em cima da mesa há duas horas, e funciona por uns minutos, antes de voltar.

Ele não comenta isso com ninguém. Não porque seja segredo, mas porque não sabe como explicar uma sensação que não tem explicação. “Tive uma crise de ansiedade do nada” soa estranho até pra ele mesmo, então prefere guardar, esperar passar, voltar a fazer o que estava fazendo assim que o corpo se acalma.

Tem uma diferença simples entre o medo e esse tipo de aperto. O medo sempre aponta pra alguma coisa: o carro que quase bate, a ligação que ele não quer atender, o resultado de exame que demora a sair. Esse aperto não aponta pra nada. Não tem nada de abstrato nisso: é o corpo dele, ali, naquela cadeira, fazendo o trabalho que a cabeça ainda não conseguiu fazer.

O que não foi dito raramente é uma coisa só. Tem o medo antigo que ele nunca examinou de perto. Tem a escolha que vem sendo adiada há tempo demais pra admitir que está sendo adiada. Não dá pra saber de fora, e nem sempre dá pra saber de dentro, pelo menos não de cara.

Tem gente que sente esse aperto exatamente no intervalo entre uma tarefa e outra, no momento em que nada está sendo cobrado e, por um instante, daria pra simplesmente parar. É como se a pausa abrisse espaço pra alguma coisa que vinha sendo segurada o tempo todo. O domingo à tarde é clássico nisso. O feriado no meio da semana, o projeto que finalmente termina depois de meses, também.

Tem também quem sinta o oposto, a calma só chega quando o corpo está ocupado demais pra parar e perguntar qualquer coisa. Trabalho em excesso, agenda lotada, treino puxado todo dia: formas eficientes de nunca ficar parado o suficiente pra essa pergunta aparecer. A ansiedade no dia tranquilo, então, é o que sobra quando a ocupação para.

É o livro parado que carrega esse aperto pra ele, não porque ler seja difícil, mas porque ler é um dos poucos momentos do dia em que ele para de fazer e tem que ficar, por alguns minutos, só com o que está ali.

Lá fora o sol já não bate tão forte na janela, e o ar-condicionado segue com o mesmo zumbido de sempre. Alguém liga um carro na rua, uma sirene passa longe, o mundo segue acontecendo sem prestar atenção nele. O cursor continua piscando, e ele ainda não escreveu uma linha. O coração foi acalmando devagar, não porque ele tenha entendido alguma coisa, só porque o corpo cansa de sustentar aquilo por muito tempo.

Ele olha pro livro. A mesma página continua aberta no mesmo lugar. Em algum momento ele vai virar, não porque o aperto passou, mas porque o corpo simplesmente volta a fazer o que sabe fazer. O aperto fica ali do lado, sem endereço, esperando.

Não hoje. Mas ele vai continuar voltando até encontrar espaço.

Entender de onde vem é diferente de fazer passar.

Se você quer entender o que está por trás do que sente, podemos conversar.

Falar com Raphael