A sensação de estar vivendo no automático
Os dias passam. Nada fica.
Ela contou que havia passado o dia inteiro no trabalho e, quando chegou em casa, não conseguia dizer o que havia feito. Não porque tivesse sido um dia vazio: tinha ido a três reuniões, respondido mensagens, almoçado com alguém, além das tarefas rotineiras do escritório. Mas quando tentava recuperar alguma coisa do que havia vivido, o que vinha era uma espécie de névoa. A sensação de tê-lo vivido, não.
Aquilo já vinha acontecendo havia meses. Ela acordava, seguia o dia, abria o celular no metrô sem saber bem por quê, chegava em casa sem se lembrar do trajeto. No fim de semana, tentava descansar e não entendia por que o descanso não chegava, mesmo quando conseguia deixar de lado o que havia planejado fazer. Quando a semana começava de novo, o cansaço voltava junto com uma cobrança difusa, como se tivesse falhado em algo que não sabia ao certo nomear. Só que havia algo que não fechava, uma distância pequena entre o que acontecia e o que ficava.
Há quem chame isso de cansaço. E é cansaço, em parte. Mas o cansaço que uma noite de sono resolve é diferente desse. Esse persiste mesmo depois de férias. Os dias não são ruins, só não deixam rastro.
Seria diferente se alguma coisa doesse com clareza. Uma perda, um conflito aberto, uma decisão que pesa. Quando há uma dor localizável, o dia deixa marca. Aqui não há isso. Há o cumprimento razoável de tudo, e no fim uma sensação de que nada foi efetivamente vivido. Como se a pessoa estivesse presente em tudo e em nada ao mesmo tempo.
Algo foi sendo desconectado ao longo do tempo, aos poucos: uma prioridade que surgiu, uma vontade que foi adiada e depois esquecida, uma escolha feita a partir do que era esperado mais do que a partir do que era desejado. Nenhuma dessas coisas, individualmente, pareceria grave. Em conjunto, foram criando uma distância entre quem a pessoa é e o ritmo que ela segue.
O que a psicanálise observa nesse estado não é uma falha de motivação nem um problema de produtividade. O interno e o externo foram se separando. A vida continua se movendo, mas o que a movia por dentro foi ficando mudo.
É possível construir uma vida que funciona muito bem e ao mesmo tempo perder o fio de contato com o que a tornava sua. Isso acontece quando as escolhas vão sendo feitas a partir de critérios que fazem sentido para os outros, para a carreira, para as expectativas do entorno, sem que haja um momento de parada para perguntar o que de fato importa para essa pessoa. A pergunta foi deixando de parecer necessária, e sem ninguém para fazê-la, foi ficando sem lugar.
Esse tipo de estado costuma aparecer em pessoas que estão objetivamente bem. Elas cumpriram metas, construíram vínculos, não passaram por crises maiores. E ainda assim chegam com essa sensação de que algo está faltando sem ter nome para o que é. O que falta, muitas vezes, é o contato com a própria vida interior, posto de lado enquanto a exterior era administrada, mais do que algo externo que elas não conseguiram.
Quando a pessoa começa a perceber esse padrão em análise, a reação inicial é de estranheza, não de alívio. Ela reconhece o que está sendo descrito, mas percebe que não sabia nomear até então. Às vezes olha para a própria agenda da semana e não consegue dizer, de nenhum dos compromissos, se está lá porque quer ou porque precisa. Essa distinção foi sumindo. É como se aquilo já estivesse lá, esperando, mas não tivesse encontrado um espaço onde pudesse aparecer como pergunta.
Outro aspecto que aparece com alguma frequência é a dificuldade de responder perguntas simples sobre si mesmo. O que você prefere? O que te daria prazer fazer no próximo fim de semana? Perguntas que, numa outra fase da vida, teriam resposta imediata. Agora ficam em suspenso. Não porque a pessoa tenha se tornado indiferente, mas porque o hábito de consultar o próprio querer foi sendo abandonado por tanto tempo que o canal foi perdendo clareza. A pergunta chega e o que vem de volta é silêncio, ou então uma resposta que soa mais a dever do que a desejo.
Existe algo que acontece quando a pessoa fica tempo demais operando só a partir do que é exigido. Ela vai perdendo a capacidade de notar o que sente. Os sentimentos seguem lá. A atenção é que não vai mais na direção deles. Perguntas como “o que eu quero disso?” ou “isso me importa?” foram sendo substituídas por perguntas mais operacionais: “como faço isso funcionar?”, “o que é esperado de mim aqui?”. A troca parece pequena. O efeito, no longo prazo, não é.
O que a análise coloca em questão é a relação que a pessoa tem com a própria vida, mais do que a vida que ela construiu. Se os dias passam sem deixar rastro, a pergunta que vale investigar não é como tornar os dias mais interessantes, mas o que foi ficando de fora enquanto eles passavam.
Às vezes a pergunta que aparece nesse processo não é “como mudo isso?” mas uma que vem antes: o que foi ficando pelo caminho enquanto eu estava ocupado fazendo tudo funcionar?
Ela não respondeu quando a pergunta apareceu pela primeira vez na sessão. Ficou com a mão parada no ar, o gesto de quem ia ajustar o cabelo e esqueceu no meio do caminho, como quem reconhece alguma coisa sem saber ainda o que é.