O que é essa sensação de vazio que aparece mesmo quando tudo está dando certo?
Você chegou onde queria. O vazio não recebeu o recado.
Tinha tudo que havia planejado ter. A promoção tinha saído três semanas antes, o relacionamento ia bem, as contas estavam pagas. Era domingo à tarde, a série no episódio que esperou a semana toda, a casa em silêncio do tipo que ele sempre dizia querer e que raramente acontecia. E em algum momento, sem que absolutamente nada tivesse acontecido, parou de ver o que estava na tela.
Percebeu que estava com o controle remoto na mão sem ter apertado nada. Quando voltou a prestar atenção, o episódio tinha terminado sem que ele visse o final, e a tela perguntava se ele ainda estava ali. Não era exatamente tristeza nem cansaço, mas uma ausência sem forma, que aparecia exatamente quando, segundo tudo que ele mesmo havia estabelecido como meta, não deveria haver ausência nenhuma.
Essa experiência raramente é dita em voz alta. Não porque seja rara, mas porque vem acompanhada de uma culpa discreta: como é possível sentir isso agora? Há algo que parece inadequado em admitir o desconforto quando a vida, segundo critérios externos, está funcionando. Quem vai entender? E mais do que isso: o que dizer quando nem você mesmo entende? A dificuldade vai além de falar sobre o que sente. O que sente não tem explicação nos fatos, nem cabe em ingratidão ou falta de perspectiva: é algo que os fatos simplesmente não alcançam.
O que acontece ali é mais específico. Durante anos, ele foi a pessoa que luta por alguma coisa. Havia um objetivo, uma falta, um próximo degrau. A rotina organizava o tempo, a atenção, a forma de se apresentar para si mesmo. Acordava com propósito porque havia algo a alcançar. Quando a conquista finalmente chega e é real, o que desaparece junto com a falta é também a maneira de saber quem se é, não só a tensão da espera. A identidade que funcionava era a de quem está a caminho. Quando a pessoa chega, essa identidade não tem mais o que fazer. E a pessoa que chegou não sabe bem como se chamar agora.
A pergunta que sobra, quando o silêncio ecoa, é mais incômoda do que qualquer meta não cumprida: se não sou mais a pessoa que busca aquilo, quem sou agora?
Uma imagem aparece às vezes nessas conversas. O cachorro que corre atrás do carro. Corre com intensidade, sem parar, porque o carro está sempre à frente e essa é a única lógica que conhece. Um dia, por algum motivo, o carro para. O cachorro alcança. E ali, na frente do carro parado, não sabe o que fazer. A perseguição era a vida toda. Ninguém havia contemplado o que acontece depois de alcançar.
O que essa imagem revela tem pouco a ver com falha de caráter ou falta de ambição: a identidade foi construída em torno do movimento, não do destino. E quando o movimento para, mesmo que por conquista, sobra uma pergunta para a qual ninguém foi preparado. Não há manual para o que fazer quando você chega onde queria chegar e descobre que o chegar não era o ponto. A maioria das pessoas, nesse momento, acelera de novo, procura o próximo objetivo, inicia outro projeto, preenche o espaço antes que a pergunta ganhe volume. Funciona por um tempo.
A pessoa que conquistou o emprego que queria há três anos e nos primeiros meses não conseguia dormir com a ansiedade de manter o que tinha. A conquista tinha chegado, mas o estado interno não tinha acompanhado, só trocado de roupagem. Antes era a tensão de chegar lá. Depois foi a tensão de não perder. O que mudou foi o objeto do medo, não a lógica por trás dele.
A pessoa que chegou ao relacionamento que sempre buscou e passou meses esperando, sem conseguir explicar por quê, o momento em que aquilo acabaria. A pessoa que finalmente comprou o apartamento e descobriu que a obra do vizinho incomoda menos do que o silêncio dos fins de semana, aquele silêncio que antes havia sido preenchido pelo projeto de comprar o apartamento.
A sensação de vazio é a pessoa se deparando com algo que nenhuma conquista resolve, porque a conquista nunca foi o ponto central da questão. Não é o fim das coisas. Não é desinteresse pela vida.
A psicanálise não trata esse vazio como algo que precisa ser eliminado ou preenchido com novos objetivos. Não propõe técnicas para aproveitar melhor o que se tem. Abre espaço para que a pessoa fale sobre o que a conquista revelou, não sobre o que ela trouxe. E quando essa conversa começa, o que aparece costuma ser mais antigo do que o emprego, o relacionamento ou o apartamento. Antecede a conquista. Às vezes antecede a pergunta. O vazio é o espaço onde algo que estava encoberto começa a ter condições de aparecer.
A promoção era para o pai, não para si. O relacionamento era o fim da solidão, e a solidão voltou com outra forma. A casa em silêncio era o que sempre quis, e o silêncio tem um peso que não estava no plano. Essas descobertas não chegam prontas. Chegam aos poucos, enquanto a pessoa fala, às vezes sem perceber que está dizendo algo importante. E quando chegam, não chegam com alívio imediato, chegam com a estranheza de quem percebe que a história que contava para si tinha um capítulo que não estava sendo lido.
Não há resposta certa para esse tipo de descoberta. O que pode mudar, ao longo do processo, é a relação com aquilo que permanece sem resposta.
O domingo vai continuar chegando.
As situações descritas neste texto são composições ficcionais, criadas a partir da experiência clínica para fins de ilustração. Nenhuma corresponde a uma pessoa ou a um atendimento real.