Fazer terapia é sinal de fraqueza?

Carregar sozinho tem um custo que não aparece de imediato.

“Sabe, eu sempre achei que gente forte resolvia as coisas sozinha. Estou aqui meio que contra mim mesmo, se é que isso faz sentido.”

A frase saiu antes de qualquer outra coisa. Antes de contar o que o trouxe, antes de falar das noites sem dormir ou da sensação de que algo havia entrado num beco sem saída. Um homem de pouco mais de quarenta anos, primeira sessão, olhando para as próprias mãos enquanto falava como se as palavras saíssem mais fáceis assim, sem precisar encarar nada. O que ele disse carrega algo que muita gente leva em silêncio: pedir ajuda é uma derrota. Uma rendição que diz ao mundo, e principalmente a você mesmo, que você não foi forte o bastante para segurar o próprio peso.

Essa ideia chega antes de ser nomeada. Ela não aparece como pensamento, aparece como hesitação: o tempo que se leva para marcar uma consulta, os anos de adiamento que antecedem um primeiro contato. Habita os bastidores de muitas vidas, sobretudo as que aprenderam cedo que mostrar vulnerabilidade é um risco que não vale a pena correr.

Mas o que exatamente estamos chamando de fraqueza aqui?

Porque, se olharmos com atenção, as coisas começam a se embaralhar de um jeito curioso. O homem que chega ao consultório depois de anos carregando sozinho o que lhe pesa não está ali porque fraquejou. Está ali porque aquilo que ele tentou resolver sozinho não se resolveu. A força que ele acreditava ter, aquela que dizia “eu dou conta, não preciso de ninguém”, revelou-se uma armadilha que o manteve preso ao mesmo lugar por mais tempo do que deveria. O que parece força muitas vezes é um modo de não encarar o que está acontecendo. E manter esse modo funcionando tem um custo.

O custo aparece de formas distintas: em alguns é um cansaço que não tem causa visível, em outros é a percepção de que certas situações se repetem com a mesma lógica, os mesmos desfechos, e que a explicação disponível nunca parece suficiente. Há quem carregue isso durante anos sem dar nome, só sabe que em determinados momentos um cansaço diferente aparece, não de esforço físico, mas de estar sempre em guarda. De nunca poder parar completamente. O que é comum a todos é que o esforço de sustentar a ideia de que está tudo sob controle consome mais energia do que a pessoa percebe, e uma hora esse esforço aparece.

Fazer terapia tem menos a ver com ser fraco ou forte e mais com a coragem de olhar para o que você passou anos desviando o olhar: a disposição de admitir que algo ali não está funcionando já é, no sentido mais preciso do termo, um ato de coragem. Não ausência de medo, mas a decisão de agir apesar dele.

Existe uma imagem que atrapalha muito essa decisão. A de que a pessoa que faz terapia está em busca de respostas prontas, de um caminho que alguém vai lhe entregar. Você chega, conta o problema, e o profissional, como um mecânico de alma, identifica a peça quebrada e faz o conserto. Só que não é assim que funciona. A terapia é um espaço onde você pode finalmente ouvir a própria voz sem o ruído das expectativas de fora, onde pode se deparar com versões de si mesmo que preferia não reconhecer, onde pode descobrir que as respostas que procurava estavam soterradas por defesas que você mesmo construiu para não ter que encará-las. Isso exige algo diferente de qualquer outro esforço: exige abrir mão da ilusão de controle. E quando essa ilusão começa a ser perturbada, o que aparece costuma ser desconfortável antes de ser qualquer outra coisa. O desconforto tem outra origem: algo, pela primeira vez, está sendo visto.

Existe ainda outra camada, menos falada. Muitas pessoas que evitam a terapia, ou que olham com desconfiança para quem faz, estão reproduzindo um aprendizado muito antigo: a ideia de que sentir é uma falha, de que o sofrimento deve ser suportado em silêncio, administrado como quem toma um remédio amargo e segue em frente. Essa visão é uma das mais violentas que herdamos, porque o sofrimento não desaparece quando ignorado. Ele não some por esgotamento nem por boa vontade. Ele se transforma, se desloca, se instala em outros lugares: às vezes num corpo que adoece, num sono que não vem, numa irritação que explode em horas inesperadas, numa tristeza que não tem nome e que não se consegue explicar a ninguém, nem a si mesmo.

Dar um destino ao sofrimento que não seja escondê-lo é a diferença entre carregar um peso o tempo todo e colocá-lo no chão por tempo suficiente para entender o que ele é. Não com a expectativa de se livrar dele de vez, isso raramente acontece da forma como a pessoa imagina. Mas para que ele deixe de organizar tudo ao redor de si. Para que as escolhas que a pessoa faz parem de ser determinadas, sem que ela perceba, pelo esforço de não sentir o que está sentindo.

No fim da primeira sessão, o homem se levantou, agradeceu, olhou uma vez mais para as mãos. Não havia nada resolvido. Havia apenas algo que havia sido dito em voz alta pela primeira vez, sem saber ainda o que fazer com isso.

Você não precisa ter decidido ainda.

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