Como saber se preciso de terapia?

A pergunta raramente aparece à toa.

Ele está no carro, estacionado na frente de casa, mas não desliga o motor. As mãos seguram o volante como se fosse o único ponto firme da tarde. Acabou de almoçar com dois amigos, um deles insistindo no mesmo assunto há meses. “Cara, só vai. Marca uma sessão, testa. Se não gostar, não volta. Mas para de ficar nesse impasse.” Ele riu na hora, mudou de assunto, pediu mais uma porção de batata frita. Não era a primeira vez que esse amigo tocava no assunto. Da vez passada foi de leve, numa mesa de bar, fácil de desviar com uma piada. Dessa vez veio direto, sem deixar espaço pra ele mudar de rota. Agora, sozinho, motor ainda ligado, a frase ecoa com uma nitidez que não teve no restaurante.

Ele sabe que o amigo não está errado. Já salvou o contato de uma psicanalista no celular. Já abriu o site duas vezes e fechou antes de terminar de ler. Uma vez chegou a escrever uma mensagem inteira e apagou, letra por letra, antes de mandar. Não falta tempo, nem dinheiro. Falta alguma coisa que ele ainda não sabe nomear. Talvez o medo de descobrir algo que prefere não ver. Ou o medo, ainda maior, de não descobrir nada, de que tudo isso seja frescura e ele devesse simplesmente seguir em frente, grato pela vida que tem.

O motor desliga. O silêncio pesa diferente agora, e ele fica ali, olhando o para-brisa, enquanto a pergunta volta como um zumbido: como saber se eu preciso de terapia?

Existe uma crença silenciosa que a gente carrega sem perceber. Ela diz que terapia é coisa pra quem está no fundo do poço. Pra quem perdeu o emprego. Pra quem não consegue mais sair da cama. Se a pessoa ainda levanta, trabalha, sai com os amigos, ri de vez em quando, então aparentemente está tudo em ordem. Como se a dor precisasse de um tamanho mínimo, um diagnóstico visível, pra merecer escuta.

O que ele chama de estar bem, na prática, é um silêncio que se arrasta há anos, como a irritação por coisas mínimas, a sensação de assistir os próprios dias de camarote, sem que isso chegue a ser uma tragédia nem vire uma vida que realmente anima. É como dirigir com o freio de mão puxado há quilômetros: o motor forçando vira normal, deixa de incomodar, vira só mais um ruído de fundo que ninguém repara.

Pra ele, isso tem uma forma específica, checar o celular de novo assim que larga, mesmo sem notificação nenhuma. Ou responder “tudo certo, correria normal” antes mesmo de a pergunta terminar, de um jeito tão automático que ele nem percebe mais que está respondendo.

A conversa com o amigo não trouxe resposta nenhuma. Só cutucou. Quem não precisa de terapia não tem esse tipo de conversa, e isso não tem a ver com ignorância: a pergunta simplesmente nunca chega a aparecer. Ela só vira relevante quando alguma parte da pessoa reconhece que a repetição já não dá conta, que o caminho de sempre está levando sempre ao mesmo lugar.

Quando ele entrar de fato numa sala de análise, não vai ouvir uma pergunta sobre o que está quebrado nele. Vai ouvir um convite: falar sem rumo, dizer o que vier, deixar a fala andar sem a pressa de quem precisa chegar a algum lugar.

Ele já imaginou a primeira sessão um número de vezes que nem soube contar, sempre travado no mesmo ponto, tentando adivinhar o que vai dizer assim que sentar. Como se existisse um discurso certo pra abrir, uma ordem correta pros fatos, um jeito de explicar a própria vida sem deixar buracos. Não existe. A sessão não cobra isso dele, e o que ele tem agora, falado de qualquer jeito, já é o ponto de partida.

Tem gente que chega contando uma coisa pequena, sem importância, e no meio da frase para, porque percebe que aquela coisa pequena não era bem sobre o que parecia. Tem gente que repete a mesma queixa pra pessoas diferentes, em situações diferentes, achando que está falando de coisas diferentes. E não está. É nesse tipo de deslocamento que mora o trabalho. Não em explicar a vida da pessoa de volta pra ela. Em deixar ela escutar o que já estava dizendo, sem saber.

A ansiedade que ele carrega há anos ganha outro lugar nesse processo. Deixa de ser só o inimigo a eliminar. Passa a ser pista de algo que ficou calado tempo demais. A raiva que ele descarrega nos filhos, ou na esposa, ganha endereço. Vem de bem antes, já era dele antes de ele saber que existia. O medo de se comprometer é mesmo sobre o outro, ou sobre o que ele aprendeu a esperar de si mesmo? A pergunta fica de pé, sem resposta pronta.

Não há manual. Só uma escuta que não tenta consertar, porque não parte do princípio de que ele esteja quebrado.

Do outro lado da rua, um vizinho lava o carro e acena. Ele acena de volta, sem sair do banco.

Ele ainda está no carro. O motor desligado, a casa esperando do outro lado do vidro. Pega o celular, abre os contatos, olha o nome salvo da psicanalista. Não escreve nada, só guarda o telefone no bolso e fica mais um pouco ali, sem decidir nada, sem saber se essa tarde vai ser diferente das outras em que parou exatamente nesse mesmo ponto.

Pode ser que ele desça do carro e esqueça disso até a próxima vez que alguém tocar no assunto. Pode ser que mande a mensagem ainda hoje. As duas coisas cabem na mesma pergunta, e ela continua sem resposta: como saber se eu preciso de terapia? Talvez a única coisa certa seja que, dessa vez, ele não mudou de assunto.

Você não precisa ter decidido ainda.

Quando quiser, é só mandar uma mensagem.

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