Como é a primeira sessão de psicanálise?

Você ensaia um discurso que ninguém vai pedir.

Ela está sentada num banco de praça, o celular na mão com o endereço salvo. A consulta é daqui a duas horas. Ela olha as folhas das árvores, as pessoas passando, um casal discutindo não muito distante a ponto dela conseguir ouvir algumas falas. Um pombo bica o chão a um metro dela, sem pressa nenhuma, como se tivesse o dia inteiro. O coração acelera quando pensa no que está prestes a fazer. Marcou a primeira sessão depois de meses de hesitação, de conversas com a amiga, de noites em claro se perguntando se era necessário. Agora o dia chegou.

Ela ensaia mentalmente o que vai dizer. “Vou começar contando minha história, do começo.” Depois pensa: “E se ele fizer perguntas muito pessoais?” Depois: “E se eu não tiver nada pra dizer, será que ficar em silêncio é um problema?” Imagina a cena como uma entrevista, uma avaliação, uma espécie de prova que precisa passar. Cada vez que revisa o roteiro na mente, sente que está errado, que ela não sabe exatamente como ela deve ser ali dentro.

Guarda o celular, respira fundo, olha o relógio. Ainda falta uma hora e meia. Decide andar até lá, pra gastar o tempo e a ansiedade junto. Passa em frente a uma padaria, a uma loja fechada, a um poste com um cartaz desbotado de aula de yoga. Cada passo parece um ensaio pra alguma coisa que ela não sabe descrever. Como é a primeira sessão, afinal?

Essa pergunta carrega mais do que curiosidade sobre um procedimento. Carrega a tentativa de controlar o que não dá pra controlar. Você quer saber como é porque quer se preparar, quer evitar o imprevisto, quer garantir que vai fazer tudo certo. A primeira sessão de psicanálise não funciona como uma entrevista de emprego nem como uma consulta médica. Não tem um roteiro pra seguir, nem uma performance que precise ser bem ensaiada.

Por trás dessa ansiedade mora uma crença antiga: a de que você precisa ser interessante, coerente, resolvido, pra merecer ser ouvido. Que se não souber explicar bem o problema, o analista vai achar que está perdendo tempo. Que existe um jeito certo de começar, e que dá pra errar logo na entrada. Essa angústia tem um papel: mostra o quanto você está acostumado a se apresentar pro mundo, em vez de se escutar.

A verdade, que só aparece quando a sessão começa, é outra. O analista não espera que você seja interessante. Espera que você seja você, e isso nunca foi tão difícil, porque talvez você nunca teve muita permissão pra isso. A vida inteira você aprendeu a calibrar as palavras, controlar as emoções, esconder o que não quer mostrar. Na sala, esse filtro não precisa existir.

Você entra, senta ou deita, dependendo de como o analista trabalha, e percebe que não tem questionário, não tem perguntas decoradas, não tem nada pra preencher antes de começar. Tem um silêncio que convida você a falar. Esse silêncio é a primeira surpresa, porque ele não pressiona, não julga, não pede nada. Só entrega a palavra, sem dizer o que fazer com ela. Não tem caderno de anotações entre vocês, não tem cronômetro visível, não tem nada que lembre uma consulta técnica.

Tem gente que entra falando do trânsito, da vaga que não achou, do horário apertado, e adia o motivo de verdade pros últimos minutos, como se precisasse de um tempo de aquecimento antes de chegar lá. Tem gente que demora sessões inteiras pra contar o motivo que trouxe até ali, e quando finalmente conta, fala rápido, baixinho, como quem quer que a frase passe despercebida mesmo sendo ouvida. Tem gente que começa pelo que sonhou na noite anterior, ou pelo que almoçou, sem saber bem por quê. Aos poucos, sem perceber, a fala muda de formato: uma lembrança de infância, uma frase que a mãe dizia, um medo nunca contado a ninguém.

O analista não interrompe pra corrigir, não dá conselho, não diz o que fazer. Escuta. E essa escuta, que parece simples, é rara. Ele não escuta só o que você fala, escuta o que você evita falar, o que repete sem perceber, o que hesita antes de dizer. Escuta o tom da voz, as pausas, as palavras que você troca por outras na última hora. Aos poucos, você também começa a se escutar.

Ali dentro, você pode se contradizer, mudar de opinião, chorar, rir, ficar quieto, sem que nada disso seja errado. Não precisa ser coerente, não precisa ser simpático, não precisa agradar o analista. Pode ser exatamente o que você é naquele momento, e às vezes isso é uma pessoa que não sabe ao certo o que sente, mas que finalmente tem espaço pra descobrir.

A sessão termina quando o analista diz que o tempo acabou. Você sai de lá com a sensação estranha de ter falado muito e, ao mesmo tempo, pouco. De ter mostrado algo que nunca tinha mostrado antes. E de não precisar saber, por enquanto, o que vem depois.

Ela atravessa a rua, senta de novo no banco da praça, respira fundo. Lembra da sessão que acabou de terminar, de tudo que imaginou que ia acontecer e do que realmente aconteceu. Percebe que a pergunta nunca foi “como é a primeira sessão”, e sim “o que eu vou descobrir sobre mim que eu não queria saber”.

O endereço continua salvo no celular. Ela vai voltar, e agora sabe por quê: não foi o medo de errar a sessão que a travou esse tempo todo. Foi o medo de acertar.

Essa é a coisa que nenhum roteiro consegue preparar.

Ficou com alguma dúvida?

Você pode mandar uma mensagem antes de decidir qualquer coisa.

Mandar uma mensagem