O que falar na primeira sessão?
O que você planejou dizer raramente é o que sai. Isso não compromete nada.
A frase não saía certa. Ela repetiu três vezes no trajeto, a pé, a doze minutos do consultório. Na primeira, soou ensaiada. Na segunda, artificial. Na terceira, ela já não sabia mais se aquilo era verdade ou só uma tentativa de parecer alguém que sabe o que sente.
A bolsa batia no quadril a cada passo. A mão fazia o gesto de quem vai pegar o celular para reler alguma coisa. Não tinha nada para reler. O rascunho era mental: o que diria quando sentasse na frente do psicanalista. “Estou aqui porque…” O início já era um problema. Toda vez que ensaiava o começo, sentia que escolhia uma versão de si mesma: a versão que sofre, a versão que resolve, a versão que já entendeu tudo e só precisa de confirmação. Nenhuma parecia certa.
Ela parou no semáforo. A luz vermelha durou mais do que deveria. Um homem ao lado consultava o mapa no celular, completamente absorto, a mandíbula relaxada, sem pressa de chegar a lugar nenhum. Por um segundo, ela quis ser aquele homem. Alguém que sabe exatamente para onde vai e só precisa confirmar o caminho. A luz abriu. Ela atravessou.
O ensaio recomeçou. “Acho que venho adiando isso há muito tempo.” Soou como frase de filme. Ela mesma não acreditou. “Não sei bem por que estou aqui.” Verdade, mas incompleta. “Alguém me disse que eu deveria tentar.” Transferia a responsabilidade, se escondia atrás de um conselho que talvez nem tivesse sido dado. Cada tentativa era mais falsa que a anterior.
A rua estava cheia. Pessoas chegando aos escritórios, saindo de padarias com café, fumando paradas na calçada. Ninguém olhava para ela. Ela era só mais uma pessoa andando rápido, com um destino, com uma hora marcada. Mas dentro da cabeça, a frase ainda não tinha se fixado. Era como tentar segurar água com as mãos.
Quando ela sentou na sala de espera, o ensaio parou. Frase certa, ela ainda não tinha. O silêncio da sala era diferente do silêncio da rua: não pedia resposta, não cobrava performance.
O psicanalista abriu a porta. Ela entrou.
Ela ia dizer “bom dia”. Saiu só um “oi” baixo, quase sem som. Sentou na poltrona. O analista sentou à sua frente, numa distância que não pedia nada, nem perto nem longe demais. Ela não sabia onde colocar as mãos. Primeiro no colo. Depois nos braços da poltrona. Depois de volta no colo, como se tivesse mudado de ideia sobre como se sentar.
Ele não disse nada.
Ela sentiu o peso do silêncio de um jeito que não esperava. Era um silêncio em que cabia qualquer coisa, longe de vazio. E de repente a frase ensaiada, todas as versões, pareceu desnecessária. O esforço de escolher a versão certa não fazia sentido ali.
Ela ouviu a própria voz: “Eu não sei bem o que dizer.”
Não era a frase que ela tinha planejado, nem a que soava melhor. Era a que estava disponível. E ao dizê-la, ela percebeu que não precisava de mais. O que viria depois não seria ensaiado. Não poderia ser. Ela podia até tentar voltar ao roteiro, retomar o “estou aqui porque…”, mas o roteiro já tinha perdido a força. Ele não cabia mais naquela sala.
O que alguém ensaia antes da primeira sessão diz tanto sobre o que espera da análise quanto sobre o que teme. A frase pronta é uma defesa: se eu souber exatamente o que vou dizer, controlo o que você vai ouvir. Se eu escolher a versão certa de mim, você não vai ver as outras.
O problema é que a psicanálise não funciona com versões escolhidas. Ela funciona com o que escapa.
Há pessoas que entram na sessão com um roteiro claro e, nos primeiros minutos, já o abandonaram, não porque esqueceram, mas porque a presença de outro que não cobra performance desmonta a necessidade de representar. E há pessoas que passam a sessão inteira tentando se ater ao que planejaram, e sentem que falharam quando não conseguem. Mas o que parece fracasso, a frase que não saiu, a emoção que veio antes da explicação, o silêncio que durou mais do que o planejado, é muitas vezes o único material que a análise pode usar.
Porque o ensaio falha por um motivo: ele é feito para um ouvinte que vai avaliar, aprovar, corrigir. O analista não faz isso. Ele escuta. E escutar é estar disponível para o texto que chega sem aviso, não esperar pelo texto certo.
Ela não disse nada de extraordinário naquela primeira sessão. Disse o que veio. Umas frases soltas. Uns silêncios. Algumas correções no meio da fala, “não, não é bem isso”. Em outro contexto, ela se sentiria despreparada. Ali, pela primeira vez, o despreparo não era um problema.
Ela deixou a sala algum tempo depois sem saber se tinha se saído bem. Não era uma prova. Ela não precisava ter ido bem. Só precisava ter ido.
No caminho de volta, o ensaio não voltou. Resposta para a pergunta do trajeto de ida, ela não tinha encontrado. A pergunta é que tinha mudado. Já não era “o que falar?”. Era “o que acontece quando eu paro de escolher o que dizer?”. Essa pergunta nova não pedia ensaio. Pedia só que ela continuasse prestando atenção.
Ela ainda não sabia a resposta. Mas agora sabia que a pergunta era outra.