Por que conhecer a si mesmo pode ser desconfortável?

O que estava escondido estava escondido por um motivo.

Num consultório, alguém termina de contar uma briga que teve com o irmão no fim de semana. O analista ouviu. Quando acabou, disse:

“Você pareceu aliviado quando ele foi embora.”

A pessoa não esperava ouvir isso. Esperava uma pergunta sobre o que tinha dito, ou sobre o que o irmão tinha feito. Mas o analista não perguntou sobre o irmão. Perguntou sobre o alívio. E foi preciso um momento para perceber que sim, havia sentido alívio. Não só depois da briga. Durante. Enquanto gritava, enquanto acusava, enquanto dizia coisas que sabia que iam machucar, havia uma parte que se sentia melhor.

Aquilo nunca tinha aparecido assim antes. Era verdade. E era justamente o tipo de verdade que ela não queria ver. Essas duas coisas convivem com frequência: algo pode ser inteiramente real e, ao mesmo tempo, permanecer fora do campo do que a pessoa consegue olhar.

Descobrir algo sobre si mesmo costuma ser descrito como libertador. Junto com a ideia vem uma imagem de presente a ser desembrulhado: algo valioso esperando dentro, só precisando ser encontrado.

A experiência real é diferente. O que se descobre muitas vezes contradiz a imagem que a pessoa tem de si. Quem se vê como generoso descobre que parte dessa generosidade é medo de ser rejeitado. Quem se vê como honesto descobre que usa a honestidade para machucar. Quem se vê como vítima descobre que também foi algoz em alguns momentos, poucos talvez, mas ausentes do roteiro que contava para si mesma.

A descoberta raramente é agradável. E o desconforto não aparece porque a pessoa é fraca ou não estava pronta. Aparece porque o que estava escondido estava escondido por um motivo. Quem esconde algo de si mesmo geralmente tem uma razão para isso, mesmo que essa razão nunca tenha sido formulada em palavras. O escondido cumpre uma função: mantém uma certa versão de si intacta, operando sem ser questionada.

Há pessoas que passam anos construindo uma explicação coerente para quem são. Tudo encaixa, tudo faz sentido dentro de um sistema que elas mesmas montaram. O problema está na finalidade do sistema: ele foi montado para ser confortável, e conforto e verdade nem sempre coincidem.

Um homem passou meses falando sobre a raiva que sentia do pai. O pai era ausente, crítico, distante. As histórias se repetiam: o pai que não aparecia, o pai que desqualificava, o pai que nunca dizia “estou orgulhoso”. A raiva era justa, e o analista ouvia sem discordar.

Até que, um dia, saiu dele: “Mas eu também faço a mesma coisa com meu filho.”

Ele não tinha planejado dizer aquilo. A frase saiu como quem tropeça no próprio passo, e o silêncio que veio depois era o de quem acaba de ouvir algo que não esperava de si mesmo, não o de quem não tem o que dizer.

Ele sabia que repetia o pai. Tinha percebido isso anos atrás e guardado numa prateleira mental, sem deixar que ocupasse muito espaço. Mas há uma diferença entre saber em silêncio e dizer em voz alta. Saber em silêncio permite que o saber fique quieto, não exija nada. Dizer em voz alta transforma o saber em responsabilidade. A raiva que até então era só do pai passa a ser também sobre ele, não em vez de, mas junto com. E isso é mais difícil de carregar.

Um padrão comum: a pessoa chega à análise com uma versão clara de onde está o problema. O problema é o pai, o chefe, o relacionamento, o passado. Essa versão não é falsa. O que muda no processo é o lugar de onde a pessoa conta essa versão, não a versão em si. Ela descobre que também está dentro da história, não só olhando de fora para ela. Esse deslocamento, de narrador distante para personagem, é o que desconforta.

Freud chamou de resistência a força que opera contra o próprio processo de entender. Não é má-fé, não é preguiça. O psiquismo tem uma economia, e manter certas coisas fora do campo de visão tem um custo, mas também tem uma função. Quando esse arranjo é perturbado, a perturbação é sentida antes de qualquer clareza. A pessoa não sente alívio de entender algo novo sobre si mesma. Sente o chão mudar um pouco.

É por isso que muitas pessoas desistem da análise ou evitam começar. O desejo de se entender melhor continua ali. O que trava é a suspeita de que o caminho vai passar por lugares que preferiam não visitar. A psicanálise não promete uma viagem por paisagens conhecidas. O que ela oferece é atenção ao que foi deixado de lado por ser incômodo demais para ficar no centro.

O desconforto é o próprio material do que acontece em análise, não um efeito colateral desse processo. Quem não sente nenhum desconforto ao se olhar provavelmente está olhando para a versão que já conhece, que já aprovou, que já decidiu que está certa. O desconforto sinaliza que apareceu algo fora do previsto, e esse algo é o que a análise quer escutar.

Há uma forma de sofrimento que funciona como uma explicação pronta: eu sou assim por causa de tal coisa. A explicação pode ser verdadeira. O problema é quando ela encerra o assunto antes de abri-lo. A análise presta atenção ao que a explicação deixa de fora, ao que escorrega por baixo do que já foi nomeado e organizado, mais do que busca explicações melhores. E o que fica de fora costuma ser justamente o que mais incomoda trazer para dentro.

De volta à sessão: a pessoa saiu pensando naquela frase. Era só isso, “Você pareceu aliviado”, mas não saía da cabeça. Tentou se convencer de que o analista tinha entendido errado, que alívio não era a palavra certa. Mas era. Havia sentido alívio. E o alívio naquela briga significava que não estava só reagindo, estava atacando. Atacar, naquele contexto, era uma escolha.

A imagem que tinha de si era de alguém que defende. O alívio contava outra história.

No caminho de casa, pensou em ligar para o irmão e desistiu. Querer, queria. Pela primeira vez, simplesmente não sabia o que diria. A frase ensaiada, “desculpa, eu exagerei”, era a frase do roteiro, a que sempre resolvia a situação, mas depois da sessão ela não cabia mais, porque era incompleta. O que realmente havia para dizer era mais complexo: “Eu estava com raiva, e parte de mim queria te machucar, e não sei bem o que fazer com isso.”

Não disse isso. Mas pensar nisso já era outra coisa, diferente de não ter pensado. O desconforto não tinha passado, mas agora tinha um nome, e um nome, em análise, não resolve nada. Muda o que é possível pensar.

No dia seguinte, mandou uma mensagem curta para o irmão, sem pedir desculpas. Disse apenas: “Oi. Queria conversar sobre o que aconteceu.” Uma frase pequena que ainda não sabia para onde ia.

O que foi dito aqui tem mais a percorrer.

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